Nos anos 60, quando Joe Gold lançou a hoje lendária Gold´s Gym, a musculação estava restrita basicamente a culturistas. Músculos desenvolvidos como os de Arnold Schwarzenegger era o padrão. As academias estavam divididas em dois grupos distintos: as que investiam em galpões abarrotados de equipamentos para levantamento de pesos, e as que se especializaram em aulas de ginástica. A partir da década de 80, com a evolução da indústria do fitness e do conceito de Wellness, as atividades passaram a dividir espaços harmonicamente. A convivência continua, mas, impulsionada pela descoberta dos benefícios à saúde e forma física, a musculação também atrai hoje mulheres e pessoas da terceira idade. Uma clientela que não pára de crescer.
O sócio-consultor da Diretta Consultoria, Rogério Soares, relembra as mudanças do setor e a conquista de um novo público. “Nos anos 80, com o desenvolvimento do conceito de atividade física, a musculação começou a melhorar sua imagem junto à sociedade e a abrir espaço para que qualquer um pudesse treinar. Nesse momento, também a mulher começou a descobrir os resultados mais eficazes deste exercício e, aos poucos, foi encontrando seu lugar nas salas. Outro ponto importante foi o reconhecimento dos benefícios da musculação para diversos grupos de pessoas, inclusive com o aval dos médicos, que encontraram nessa atividade um vigoroso aliado na prevenção, reabilitação e manutenção da saúde dos pacientes. Hoje, e com razão, a musculação tem um espaço muito importante nas academias, fruto de um trabalho consistente e eficaz para o aluno.”
Contam pontos a favor da musculação fatores como a não obrigatoriedade de horários, o que é bastante positivo nos dias de hoje, tão atribulados, e a possibilidade do trabalho mais individualizado, favorecendo a atuação do personal. A modalidade apresenta grau de retenção bastante estável em relação a outras atividades da academia devido, principalmente, ao fato do perfil do aluno ser uma pessoa que não aprecia alterar seu lugar de treinamento. Segundo dados do consultor da Diretta, nas empresas de médio e grande porte que têm preço único (plano que engloba ginástica e musculação livre) cerca de 70% das matrículas incluem musculação ao menos duas vezes por semana.
Equipamentos
Com o aumento e a diversificação de público na década de 90, os empresários do setor passaram a investir mais na área e a buscar equipamentos que fizessem a diferença para os consumidores. Como no Brasil, na época, a oferta era baixa, a solução foi importar produtos, principalmente dos Estados Unidos. Chegava-se a comprar salas inteiras. Atentos ao mercado, os fabricantes nacionais também investiram forte em tecnologia para competir em condições de igualdade com os concorrentes do exterior. A melhora na qualidade e diversidade, aliada a alta do dólar, contribuiu significativamente para o fortalecimento da indústria brasileira que, atualmente, oferece linhas muito próximas (em alguns casos até superiores) às estrangeiras, normalmente com preço melhor.
Antes de comprar máquinas e halteres, é fundamental definir o foco do empreendimento. Em seguida, deve-se planejar a reserva de espaço. “Por exemplo: Quando monto uma academia predominantemente focada para musculação, chego a destinar 70% da área de produção para o segmento. A área de produção, que inclui além da musculação, piscina, salas de ginásticas, lutas e etc, deve ser maior que a soma total dos demais setores, como recepção, vestiários, lanchonete, entre outros”, comenta Soares.
O mais correto é primeiro entender o conceito do negócio para, depois, encontrar a distribuição ideal. O passo seguinte é resolver que tipo de equipamento será utilizado, levando-se em conta desde tamanho da sala até o preço que será cobrado dos alunos.”
No momento de escolher o fornecedor e qual linha é mais apropriada ao perfil da academia, especialistas da indústria do fitness dão algumas dicas. “Para a compra, em primeiro lugar, devemos considerar a capacidade ou disponibilidade de pagamento do nosso aluno. Não adianta ter importados se o valor da mensalidade arrecadada só garantirá o retorno do investimento de produtos nacionais. é a relação custo-benefício. A partir do valor estimado, deve-se ter em mãos orçamentos de empresas diferentes e fazer a escolha baseada na qualidade técnica (segurança-eficiência), design e variedade de uma mesma linha, o que possibilite ter na sala uma estética mais uniforme”, avalia a diretora da Salute, de Recife (PE), Andréa Massa. A academia está no mercado desde 2003 e conta com 700 alunos. Dos 800m_ de área construída, 120 foram reservados à musculação, espaço que conta com 20 aparelhos. De acordo com ela, do capital investido no negócio, 38% (sendo 96% em equipamentos e 4% em acessórios) foram destinados à área.
Para Maneco Carrano, diretor da Fórmula Academia, que atende 11.500 clientes (são quatro unidades em atividade) e apresenta salas de musculação com 700m_ a 800m_, é válido exigir confirmação de manutenção, principalmente durante o período de garantia de fábrica. “Vale, antes de mais nada, conhecer o histórico do fornecedor, a qualidade de sua assistência técnica e o valor das peças de reposição. Principalmente para as academias que não têm equipe de manutenção própria dos aparelhos, vale negociar no momento de fechar contrato a manutenção durante todo o período da garantia, sendo fundamental avaliar a questão de reposição de peças.” Carrano calcula que, partindo da construção do zero, é preciso investir 22% no setor de musculação.
Manutenção eficiente tem dois aspectos positivos básicos. Primeiro, evita reclamações de alunos pela impossibilidade de usar equipamentos em caso de quebra. Segundo, prolonga a vida útil do produto. A estimativa de fabricantes é que o tempo médio para o surgimento de problemas e eventual necessidade de substituição gira em torno de 4 anos, isso levando-se em conta a utilização de produtos de design e tecnologia modernos e boa qualidade, sempre submetidos à manutenção preventiva. Com os chamados pesos livres, a durabilidade pode ser ainda maior.
Os equipamentos estão mais modernos e duráveis. O problema é que o consumidor está mais exigente, principalmente nas superacademias, que sentem a pressão para a troca regular de aparelhagem. De acordo com Soares, as grandes redes procuram fazer essa renovação em aproximadamente três anos (as pequenas e médias empresas em torno de cinco). “O ideal é que se faça um fundo de reserva para esse tipo de gasto. Todos os meses se guarda uma porcentagem do faturamento da sala. O valor dessa 'poupança' deve ser calculado com base na vida útil do equipamento e o seu valor de compra. Por exemplo: para uma máquina que custa R$ 5.000,00 e dura 4 anos, devemos guardar por mês a quantia de R$ 100,00, o que corresponde a 2% do valor do bem.”
A gerente de mercado da Body Tech da Colômbia, Gigliola Aycardi, aconselha a venda dos aparelhos usados antes de efetivar a reposição. “Vender os equipamentos antes de comprar novos pode facilitar a negociação com o fornecedor e também evitar a busca por locais para depositar a aparelhagem, o que, muitas vezes, pode causar danos ou até desgastar o material que poderia ter mercado.” A Body Tech, que iniciou suas atividades em 1998, conta atualmente com 10 unidades (média de 2 mil alunos cada) e suas salas de musculação ocupam de 400m_ a 600m_, preenchidos por 100 aparelhos (80% com polia e o restante de pesos livres).
Os equipamentos são o corpo de uma sala de musculação, porém os detalhes compõem a alma. E podem fazer a diferença em relação à concorrência. Itens como amplo espaço físico, distribuição eficiente entre aparelhos e pesos livres, acabamento de piso, iluminação, paisagismo e decoração chamam a atenção, especialmente entre as mulheres. Gigliola Aycardi considera o maior pecado dos donos de academia projetar essa área pensando somente nos homens, sem levar em conta que cerca de 50% do público atualmente é feminino.
Detalhes à parte, o fundamental ainda é o resultado físico, estético e na qualidade de vida esperada pelo aluno. Para isso, não bastam apenas equipamentos de qualidade. Profissionais de Educação Física preparados e com especialização em treinamento e musculação são 'peças' fundamentais para o funcionamento dessa engrenagem.
Nos últimos anos, os equipamentos sofreram avanços tecnológicos, como a informatização dos dados do aluno e controle eletrônico de carga dos aparelhos, por exemplo. “Esse tipo de máquina entrou no mercado como 'solução' para a academia, uma vez que o proprietário poderia ter um aproveitamento maior das máquinas. Porém, por ter custo elevado, não ganhou muito espaço, restringindo-se mais às grandes redes. Também sofreu uma espécie de rejeição por parte dos alunos, que sentiram falta do tratamento dispensado pelos professores. O meio termo são os softwares que controlam as séries dos alunos, mas não dispensam o acompanhamento e atenção dos professores”, comenta Soares.
Crédito
O investimento para compra ou reposição de equipamentos costuma ser alto. Quando falta o capital total disponível, uma alternativa são as linhas créditos. As opções são financiamento privado (geralmente com taxas de juros mais alta do mercado, tornando-se inviável), leasing ou, no caso do Brasil, por intermédio do Proger (Programa de Geração de Emprego e Renda). Entre outras ações, o programa do Governo Federal disponibiliza linhas especiais de crédito com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) para investimento, de longo prazo, com ou sem capital de giro associado, destinados a micro e pequenas empresas. Nessa alternativa, o empréstimo é oferecido através de bancos oficiais, como Banco do Brasil, Caixa Federal e Banco do Nordeste. Até R$ 100 mil, a liberação é imediata nas agências bancárias. Acima desse valor até R$ 400 mil é necessário a apresentação de um projeto do Sebrae para avaliação.
Os fabricantes também criaram alternativas para aquecer o mercado e, conseqüentemente, vender mais. O resultado são leasings, financiamentos e parcelamentos em até 10 vezes (conforme o volume da compra pode não haver cobrança de juros) ou mais. Muitos fornecedores aceitam incluir na negociação de compra de produtos novos, os materiais antigos como parte do pagamento.
Apesar da maioria dos profissionais concordar com o peso da musculação na indústria do fitness em razão da diversificação do público, o gerente geral da Go Fitness & Spa, Eduardo Astrosa, do Chile, acredita estar havendo uma queda na preferência pela modalidade. “Creio que a tendência é uma baixa no setor, sendo substituído por atividades programáticas. Nos últimos anos senti que atividades como o bike indoor, body pump e yoga estão tomando espaço, sendo 70% de aulas grupais contra 30% de musculação.” Outro aspecto abordado por muitos empresários e professores é a opção dos alunos em unir musculação a outras atividades, especialmente as aeróbias.
Seja em busca de um corpo mais atlético ou com o objetivo de manter a saúde em dia, a musculação é uma grande ferramenta para garantir a qualidade de vida das pessoas. Para os empresários da indústria do fitness e fabricantes de equipamentos fica o desafio de manter esse mercado aquecido e forte. Pela procura nas salas e quantidade de alunos levantando peso, a tarefa não será das mais difíceis.